Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Inglaterra: Selecção vs Clubes


A 12 de Março escrevi um "post" em que apelidava a Liga dos Campeões de "Liga Milionária", já que cada vez se afasta mais da terminologia que nomeia a competição. Após assistir à Final desta edição posso dizer: Gosto de não ter razão.
Esta noite assistimos a uma final entre duas equipas que estiveram envolvidas na luta pelo título até ao último minuto do campeonato. Mesmo com toda a carga psicológica e física que compreende esse factor, estes dois maravilhosos conjuntos conseguiram chegar à Final da Champions.
O facto de a Final ter apresentado dois clubes ingleses é o pretexto ideal para eu me debruçar sobre uma questão pertinente que é explicar a disparidade existente entre os Clubes e a Selecção Inglesa.


Factor 1: Importação

- É curioso verificar que no ano de afirmação e domínio incontestável das equipas inglesas na Europa a selecção do mesmo país falhou a qualificação para o Europeu.
Isto deve-se à mudança de mentalidade que se verificou nas terras da Velha Albion nos últimos anos. A Premiership, outrora quase reservada aos britânicos, é hoje em dia um verdadeiro "melting pot" de talentos vindos do estrangeiro. Olhemos para os grandes: O Chelsea tem no seu "11" base 3 ingleses (Terry, Ashley Cole e Lampard), o Liverpool tem apenas 2 (Carragher e Gerrard) e o Arsenal ainda vai mais longe, contando só 2 (!) ingleses em todo o plantel (Justin Hoyte e Theo Walcott) sendo que nenhum deles é um titular indiscutível. Apenas o Manchester United foge à regra com Ferdinand, Brown, Hargreaves, Carrick, Scholes, Rooney...
Perante isto não é de todo estranho que o clube "Inglaterra" tenha falhado a qualificação para o EURO 2008, já que os clubes que mais jogadores fornecem à selecção são clubes como o Tottenham ou o Newcastle, pouco habituados a grandes vitórias.


Factor 2: Treinadores

- Este desaparecimento dos ingleses dos "onzes" dos grandes também tem a ver com os homens que comandam estas equipas. Benítez, Mourinho ou Wenger são latinos e adeptos de um futebol táctico interpretado por jogadores com uma boa técnica. Ora o protótipo do jogador inglês, preso ao jogo directo e pouco pensado não encaixa no modelo de jogo destes treinadores e como tal é preterido.
Até mesmo Sir Alex Ferguson tem sabido entender que a evolução do futebol Europeu caminha cada vez mais para os modelos de jogo importados pelos seus colegas e tem remodelado o estilo do United que se julgava inalterável enquanto fosse ele o "Manager".


Factor 3: Modelo de Jogo

- Quando penso em selecções Europeias a nível de talento individual, penso quase sempre em 1º lugar na Inglaterra. Têm um dos melhores defesas esquerdos do Mundo, os 2 melhores Box-to-Box do Futebol acutal, avançados goleadores como Rooney, Owen ou até o gigante Crouch, têm Beckham, Joe Cole, Lennon, Hargreaves...e mesmo assim nunca ganham nada. Porquê?
Quanto a mim a resposta está no facto de que a mentalidade da selecção não acompanhou a mudança que se verificou na Premiership. O estilo da Equipa Nacional continua muito preso ao tal futebol directo, ao dogma do 4x4x2 clássico e por isso não consegue ultrapassar selecções mais fracas como a Croácia ou a Rep. Checa, que estão em constante desenvolvimento e aprendizagem.


Conclusão/Solução:

Em Inglaterra "moram" neste momento as melhores equipas do mundo. A Premiership é hoje em dia qualificada quase por unanimidade como a melhor Liga da Europa. Além disto, tudo o que envolve o Futebol Inglês é único, até na maneira como o público tem parte no jogo. Para que este país venha a ter uma das melhores selecções do mundo, precisa apenas de moldar um pouco a identidade da sua selecção ao que se passa à sua volta, pois para melhor muda-se sempre.
Sendo assim, acredito que a contratação de Fabio Capello é um bom começo pois acho que o italiano não se vai deixar imbuir pelo futebol feio do inglês comum, mas sim fomentar o perfume/rigor (permitam-me o paradoxo) latino que tantas alegrias tem dado aos adeptos dos maiores clubes do país.

8 comentários:

Miguel disse...

Well done.
Depois assim que puder passo por aqui comentar o post de uma forma mais elaborada.
Até lá, o meus cumprimentos.

Ps: Bernardo para quando o 3º do Liverpool?

Bernardo Rosmaninho disse...

Miguel, quando passar este fim-de-semana irei colocar aqui o terceiro post do Liverpool, ok?

Grande João, acho que este post ficou bem melhor do que aquele que eu esperava ver. Gosto das premissas com que analisas a questão. Deixo aqui o meu contributo.

Acho que a selecção inglesa não pode, qual Arsenal ou Chelsea, mudar completamente, por força das ideias de um treinador estrangeiro que chegue e tente, ao fim de uma, duas ou mais épocas, efectuar as mudanças que, por exemplo, Wenger e Mourinho, efectuaram.
O trabalho de um clube é diferente do de uma selecção e mesmo assim creio que a intenção dos directores da FA quando trouxeram o Sven G.E. para o comando da equipa era a de, mais do que mudar mentalidades, mudar a forma de jogar da equipa dos 3 leões.

Verdade seja dita, após o Euro 2000, prova em que ajudamos (e muito) a enviar os ingleses para casa pensar (foram 3os no grupo), eles contrataram o Sven e passaram, gradualmente, a jogar bem melhor. Infelizmente para os 'bifes', em termos de resultados, nunca passaram dos quartos de final de uma prova isto porque, 2 das 3 vezes em questão foram eliminados por Portugal (da outra foi o Brasil por 2-1 em 2002)!

Obviamente que eu estou feliz por termos ganho os jogos em questão mas não posso deixar de compreender que (também) foi graças a eles que firmamos o nosso nome nas últimas competições em que estivemos. Quer dizer, desde 2000 que eles andam a comer dos 'tugas'! Mais tarde ou mais cedo, e sobretudo depois do sueco ter saído, a coisa teria que descarrilar.

Bernardo Rosmaninho disse...

Não acho que exista uma relação entre a qualidade da Liga e da equipa nacional.
A qualidade da Premiership assenta na diversidade dos seus membros (jogadores e técnicos), na cultura dos seus dirigentes e espectadores e na justiça e rectidão daqueles que regem a prova (em especial a FA).

Inclusivé não vejo uma enorme relação entre os clubes que cedem jogadores á selecção e o seu desempenho nela.
Na Coreia em 2002 dos 23 convocados a maioria era de clubes grandes. No Euro 2004 só 7 jogadores não eram de um dos chamados 'grandes'. Finalmente, no Mundial de 2006, apenas 4 jogadores não pertenciam a um grande clube inglês ou europeu.

Aceito, no entanto, que levantes essa ideia (e as outras) porque, muito sinceramente, não consigo explicar o rendimento da Inglaterra. Não sei se trata do modelo de jogo e se a entrada de Fabio Capello é algo de positivo para a equipa (negativo não é de certeza). Nessa optica, eu já considerava Sven-Göran Eriksson uma mudança fantástica.

Mas talvez tenhas razão. Talvez o italiano seja a peça que falta neste puzzle. Será que ele terá tempo para conseguir efectuar as suas mudanças? E tendo tempo, terá mais sorte que o seu predecessor estrangeiro? São questões que eu espero ver respondidas...

Até lá, leio estes posts. Ainda bem que o fizeste. Um abraço.

João Tudela disse...

Grande Bernas, concordo contigo quando dizes que o Eriksson foi um grande passo em frente, por outro lado, o Steve McLaren foi o inverso, pelo menos na minha opiniao!

Vamos ver, o Capello tem 2 anos a sua disposiçao para fazer algo de "especial" por esta selecção, que eu sinceramente espero ver em grande no Mundial, pois gosto muito dos seus jogadores.

pedro silva disse...

1- Importação- Não creio que o facto de muitos jogadores virem de clubes menores tire capacidade à equipa. O que problema não está em virem de clubes menores que não vencem está, isso sim, na qualidade desses clubes. Em Inglaterra os clubes menores não têm cultura táctica (como os de topo não tinham até há uns anos) e isso reflete-se nos jogadores. Não têm experiência e cultura para jogarem numa competição que não seja a premier league como a Champions (ou neste caso uma competição de selecções). A Itália e a espanha convocaram para este Euro respectivamente 9 e 7 jogadores de clubes menores da sua própria Liga. E se no caso da Espanha os resultados não existem (e isso não está relacionado com esses jogadores de clubes menores cuja qualidade é maioritariamente indíscutivel) no caso italiano os resultados são mais que evidentes.

2-O fergusson ao fim de 20 e tal anos finalmente aprendeu que para se ganhar na europa precisa de saber defender bem e ser tacticamente muito melhor do que o manchester de sempre. E(com muita muita sorte de novo) lá ganhou!

3- Não creio que a Inglaterra a nível indivudual seja a melhor. Aliás creio que nesse nível tanto Espanha ou a Itália estão num patamar muito superior. A Inglaterra está ao nível da França.
Gerrard é um jogador soberbo e super completo já Lampard é um jogador bem inferior em tudo, de quem Mourinho retirou o máximo (mas que mais ninguém consegue fazer da mesma forma). E se Inglaterra tem esses 2 Espanha tem Xavi, Cesc, Iniesta ou Xabi Alonso e Itália tem Pirlo, Gattuso, De Rossi ou Perrotta. Rooney, Crouch ou Owen? São ultrapassados a milhas por Villa e Torres ou Toni, Del Piero e Cassano. Trezeguet, Inzaghi ou Raúl que ficaram de fora teriam claramente lugar nessa equipa inglesa.

Conclusão- Sem dúvida que a liga inglesa detém as 4 equipas mais fortes. Nem em Espanha nem em Itália existem 4 equipas como em Inglaterra. Mas o problema é que essa qualidade não se alastra aos clubes médios-pequenos e daí creio que é totalemente imponderado afirmar que a Premier League é a melhor liga do mundo. Uma Liga são 20 equipas e nesse âmbito tanto o Calcio como La liga são superiores.

A liga Espanhola é de longe a melhor. Há 2 anos tivemos na meias da Uefa 3 equipas espanholas sendo uma delas o Osasuna, um regular lutador pela permanência. O Espanhol equipa de meio da tabela chegou à final. O getafe não só chegou 2 vezes à final da taça como este ano com 10 jogadores fez o que fez contra o Bayern e não passou dum modesto 14º lugar na Liga!!! Há 2 anos tiveste o Villareal, um clube mediano, nas meias-finais da liga dos campeões!!! Em nenhuma outra liga vez tanta qualidade e competitividade nas equipas como em espanha. Tens a Real Sociedad num ano a lutar pelo título no ano seguinte lutou pela despromoção. O Zaragoza crónico candidato às competições europeias desceu de divisão!!! O valência com toda aquela equipa e apesar de todas as reformulações não conseguiu sair de baixo. Etc etc.

Outro aspecto relevante são so jogos. Se vires a Premier League (e sei que vês) é muito raro veres o United ou o Chelsea a serem dominados por clubes menores. Mesmo quando não ganham controlam o jogo e é sempre mais por demérito que não levam os 3 pontos. Só para teres um exemplo simples a Roma na segunda parte do jogo com o Catania (que lutava pela despromoção) foi dominada, esmagada e atropelada! E não é coisa rara de se ver quer em Espanha ou Itália. Uma equipa pequena não tem claramente o mesmo poder que um grande. Mas há uma coisa que o dinheiro não compra: organização táctica. Essa é claramente a única forma de um clube pequeno poder rivalizar com os grandes. E é isso que os clubes medios-pequenos ingleses não têm e os espanhois e Italianos têm e os leva a ter muito mais sucesso.
É só olhares para o Setúbal que com uma equipa miserável mas tácticamente bem organizada fez uma época fantástica.

Abraço (estiquei-me no comment mas pronto)

João Tudela disse...

Grande Pedro, concordo com muito do que dizes, mas queria só focar 2 coisas:

1º Quando digo que penso na maioria das vezes na Inglaterra em primeiro não estou a dizer que considero a Inglaterra a melhor, longe disso. Seria estúpido dizer que em talento individual estão acima da Itália ou da Espanha.

2º Quanto à Liga, se é verdade que não vejo por exemplo o Sunderland dominar o Manchester e em Itália é possivel ver o Catania dominar a Roma; por outro lado não era capaz de ver um Catania-Udinese sem adormecer, por outro lado se me mostrarem um Birmingham-Aston Villa vejo do principio ao fim e tenho garantido um jogo apaixonante.

Isso deve-se também à tal organizaçao táctica que referes faltar aos pequenos em Inglaterra e sendo assim posso concordar que se calhar a Liga Espanhola é melhor que a Liga Inglesa, mas a Inglesa é sem dúvida a mais apaixonante, disso não creio haver dúvidas.

Grande Abraço

Miguel disse...

O post está bom mas discordo de algumas ideias que os comments e o texto original transmitem.

- Não acho que a origem dos jogadores não tira capacidade ás selecções, em especial á inglesa.

- É ridícula a ideia que os clubes ingleses possuem jogadores menos dotados que os espanhois ou os italianos. O Leeds foi á final da Liga dos Campeões em 2001 e é um clube pequeno de inglaterra, ao passo que o Villareal é detido por um milionário local e é um dos montes de clubes médios em Espanha.

- Grandes, na La Liga, só existem dois, o Barcelona e o Real Madrid. Os outros clubes que fazem do campeonato espanhol o mais competitibo de todos são médios com um número mt reduzido de clubes ditos pequenos que mesmo assim só á conta de emprestimos e muito apoio dos adeptos é que se aguentam.

- O mesmo acontece em Itália, mas sem o espetaculo de Espanha e com clubes que vivem para a táctica e que escondidos no seu contra-ataque e equilibrados por uma entreajuda sem paralelo tornam um campeonato previsivel como tudo em algo que tem a sua ocasional surpresa.

- Os clubes ingleses, sem terem tantos anos de participação, já levam mais trofeus na mala que italianos e (excluindo o fenomeno real madrid) espanhois.

miguel disse...

Acho que a melhor liga é algo que cada pessoa pode escolher, porque é uma preferência não é algo fixo. Depende dos gostos. A Premiership, pelo seu ambiente e estilo, é algo á parte. A liga italiana, pelo seu tipo de jogo e a espanhola, pelo enorme número de equipas médias e pelo espetáculo, são ligas muito muito boas.

- A premiership talvez seja a mais completa e a la liga a mais espetacular.

- Mas não é de certeza absoluta "de longe" a melhor liga! Nenhuma liga onde existem clubes que não pagam á mais de dois anos a jogadores e onde a força dos clubes é aparente e sustentada pelas sobras dos grandes ou por um ocasional talento pode ser a melhor liga do mundo!

Ah! E o Manchester não teve sorte!! Quem enfia na Roma dois anos seguidos como o MU enfiou, quem joga daquela forma não é por sorte que ganha o quer que seja. Sorte só se foi no penalty do Terry porque de resto foi tudo muito merecido.

Isto ficou muito longo e espaçado mas finalmente arranjei tempo para vir cá comentar como disse.
Fiquem bem e bons posts.